Descontrolado, Ciro Gomes parte para atacar jornalistas da esquerda ao estilo Bolsonaro

Ciro Gomes e parte do PDT iniciam campanha na velha forma: mentiras, agressões à imprensa e covardia que emula bolsonarismo

Após discurso repleto de platitudes (e algumas mentiras), Ciro Gomes e integrantes do PDT perdem a linha. Reproduzem métodos fascistas, tentam calar jornalistas

Enquanto o evento de lançamento da candidatura de Ciro Gomes à Presidência da República esteve sob controle do núcleo de marketing do PDT, tudo parecia correr bem na sede nacional da legenda. Num discurso centrado na “rebeldia” e na “esperança”, com a assinatura intelectual do jornalista e publicitário João Santana e lido em teleprompter pelo candidato, houve promessa de pôr fim ao teto de gastos e a voltar a controlar os preços da Petrobras; houve também ataque ao ex-juiz Sérgio Moro, acusado de parcialidade em sentenças exaradas contra o ex-presidente Lula – “não consegue transformar farsa em heroísmo”, disse Ciro do ex-ministro de Bolsonaro. E houve também mentiras descaradas. A maior delas, quando o candidato pedetista se autoproclamou, mais de uma vez, um dos responsáveis pelo Plano Real. Colocado no Ministério da Fazenda quando o Plano Real já havia sido elaborado e estava em execução, obrigado a renunciar ao Governo do Ceará para assumir o posto que estava entregue ao embaixador Rubens Ricupero em razão do vazamento de um diálogo privado do então ministro da Fazenda com o jornalista Carlos Monforte, da TV Globo, Ciro Gomes tinha um “controller” na secretaria-executiva do ministério. Clóvis Carvalho, que exercia o mesmo posto desde os tempos de Fernando Henrique Cardoso, ficou no cargo para não deixar o agora presidenciável pedetista fazer besteiras muito grandes.

Na entrevista, o descontrole total e os métodos bolsonaristas do PDT

O descontrole dos pedetistas presentes à sede partidária no Setor de Autarquias Federais Sul de Brasília, e do candidato a presidente da sigla, revelou-se quando terminou o roteiro rascunhado por Santana e seguido pelo candidato. Um púlpito recepcionou os microfones da imprensa e suas canoplas. Ciro responderia a uma entrevista coletiva. Parecia estar leve e satisfeito com o lançamento de seu nome para a quarta eleição presidencial que disputará. Foi 3º em 1998, 4º em 2002, 3º em 2018. Cumprimentou alguns jornalistas com um olhar sorridente por trás da máscara e trocou um aperto de mão com um deles: comigo.

Conheço Ciro desde 1990. Como chefe da sucursal de Veja no Recife, que tinha por responsabilidade cobrir vários estados do Nordeste, entre eles o Ceará, testemunhei a conversão do então prefeito de Fortaleza em governador do estado sob as bênçãos de Tasso Jereissati. Construímos uma sólida relação entre fonte e repórter. Em 2002, atendendo a um convite de Jereissati, saí das redações dos veículos tradicionais e iniciei uma trajetória como analista e consultor de comunicação respondendo pela coordenação de imprensa da campanha presidencial do próprio Ciro, que disputou o pleito pelo PPS (hoje Cidadania).

A segunda pergunta da entrevista coletiva coube ao Brasil 247 e à TV 247. Foi formulada no sentido de querer saber do candidato se a “rebeldia” dele seria exercida em 2022, “caso ocorra 2º turno”, da mesma forma que ele a exerceu em 2018, quando deixou de fazer uma aliança com outros partidos e personalidades de esquerda e viajou para Paris. No segundo turno de 2018, Ciro Gomes se ausentou do Brasil e se omitiu da luta política do mundo democrático contra a ascensão de Bolsonaro e do bolsonarismo. Ao escutar a questão, o pedetista parecia ter reencarnado o personagem pérfido e sem norte de 2002, quando, em dois momentos, pôs a perder uma campanha que podia ter sido bem-sucedida. Num deles, agrediu um ouvinte negro de uma rádio em Salvador. No outro, agrediu a então esposa, a atriz Patrícia Pillar, dizendo (numa tentativa de fazer piada mal formulada, misógina, soez) que o papel dela era central na disputa porque dormia com ele.

“Luís Costa Pinto”, começou Ciro em sua resposta. “Corria o Ano da Graça de 1985, e todos os democratas do Brasil entenderam que era necessário, para precipitar o fim da ditadura, irmos ao Colégio Eleitoral e eleger Tancredo Neves”, prosseguiu. E seria uma resposta extensa, com agressões ao ex-presidente Lula, do PT, a quem Ciro serviu como ministro da Integração Nacional. “O Lula se rebelou e expulsou a Bete Mendes e o Airton Soares do partido dele porque pelo gosto do Lula o Paulo Maluf teria ganhado a eleição no Colégio Eleitoral, o Brasil teria ido para o brejo mais brevemente e ele, com o projeto eterno de poder deles, teria precipitado a sua presença nacional”, disse.

Em seguida, prosseguiu: “a TV 247 não vai publicar. Mas, corre uma sequência, nós derrubamos o Collor” (mentira. Nota do Autor: Fernando Collor de Mello foi impedido de seguir governando por decisão do Congresso Nacional a partir das revelações de uma Comissão Parlamentar de Inquérito iniciada em razão de uma série de reportagens das revistas Veja e, depois, Istoé). Continua Ciro: “… e a óbvia consequência de Collor derrubado era o Itamar Franco. O Lula foi para a oposição e propôs o impeachment do Itamar Franco” (mentira. Nota do Autor. Lula nunca propôs o impeachment de Itamar. Ele não quis que o PT desse apoio formal ao governo. Contudo, participou inclusive de conversas preliminares da formação do Governo de Franco, aceitou o nome de José Serra como ministro da Fazenda – vetado por Orestes Quércia, presidente do PMDB – e pediu a manutenção de Adib Jatene no Ministério da Saúde, o que não foi aceito por Itamar). Segue Ciro: “…e ficou contra o Plano Real. Eu ajudei o Itamar Franco e ajudei o Real a acontecer (mentira: quando o hoje pedetista entrou no ministério da Fazenda, o Real já era moeda corrente havia três meses. Ele tentou seguir ministro da Fazenda com Fernando Henrique Cardoso e não realizou o sonho porque não tinha a confiança da equipe de economistas que elaborou o Plano Real). Prosseguiu Ferreira Gomes, sendo o Ferreira Gomes grandiloquente que o Ceará nunca deixou de conhecer: “Veio a eleição de 1989, e o único candidato que perdia para o Collor era o Luiz Inácio. O Covas ganhava, o Brizola ganhava… o Lula então se impôs” (mentira: Lula disputou o 1º turno da eleição e teve mais votos que os adversários, passando a ter o direito democrático de disputar o segundo turno. O mesmo direito que Ciro Gomes queria ter tido em 2018, disputou a eleição, e teve menos da metade dos votos do petista Fernando Haddad no 1º turno). Tem mais, nas palavras de Ciro Gomes: “… Lula se impôs e entregou o País ao Collor. E nós todos ajudamos o Lula! Depois, você sabe disso, eu ajudei o Lula em todas as eleições dele” (mentira: em 1994 ele estava no Ministério da Fazenda ajudando Fernando Henrique, que venceu em 1º turno. Em 1998, pleito também encerrado em apenas um turno, Ciro disputou contra Lula e contra FHC). Segue o tortuoso raciocínio de Ciro: “Mas, eu faço uma pergunta humilde: será que existiria o Bolsonaro se não fosse a contradição econômica, social e moral do Lula? É uma pergunta para a inteligência do povo brasileiro. Porque 70% do povo brasileiro votou no Bolsonaro em São Paulo, no Rio e em Minas Gerais. O mesmo povo que tinha dado a vitória a Dilma contra Aécio em Minas. Será que o povo brasileiro de São Paulo, do Rio, de Minas virou tudo fascista? Não, Luís, foi Lula. Então, veja, eu não posso ficar de novo sustentando a irresponsabilidade do Lula. A vida inteira eu avisei. A vida inteira! Nas eleições que você fala, 2018, recupere, por favor, em nome do jornalismo brasileiro, que tem um papel crítico muito importante para nossa Democracia… recuperem: todas as pesquisas demonstravam que eu ganhava de Bolsonaro no 2º turno. Todas as pesquisas demonstravam” (meia verdade: esse cenário só se configurou a partir do final de setembro, depois do episódio de Juiz de Fora).  Ciro Gomes ainda tinha o que falar, até partir para cima do Brasil 247 e da TV 247: “O que o Lula fez? Impõe uma candidatura mentirosa. O que todo mundo sabia? O Lula era inelegível! O Lula mentiu que era candidato, trava a disputa, e lança candidato depois não um petista vitorioso como Camilo (Santana, governador do Ceará), Jaques Wagner, não! Lançou o cara que tinha perdido um aninho antes (mentira: dois anos antes), com 16%, perdendo para nulo e branco, na Prefeitura de São Paulo. Na reeleição… será possível? Até quando nós vamos aguentar isso? Eu não sou obrigado, como cidadão… luto como posso, não tenho vida privada… luto para ajudar o Brasil. Agora, capricho de lulo-petismo, nunca mais”. Foi então que Ciro Gomes, ao cabo de um tortuoso raciocínio no qual deixou claro não apoiará Lula e que se rebelará contra uma união de siglas e personalidades de esquerda e de centro-esquerda em eventual 2º turno contra Bolsonaro, este ano também. A partir daí, assestou as baterias contra a mídia alternativa profissional. “A TV 247, Lula (referindo-se ao jornalista que o havia desequilibrado), desculpe, não é um veículo de imprensa. É um panfleto do Lula. Pago com dinheiro sujo”. Fora do eixo democrático, mas, dentro de seu padrão de comportamento, Ciro Gomes percebeu na hora o tamanho da mentira pérfida e da falsa acusação que fez. Virou de lado e impediu que o microfone fosse dado ao 247 para réplica. O Brasil 247 e a TV 247 são os maiores veículos da mídia independente. Leia, aqui, o posicionamento de nossa redação sobre os ataques do pedetista.

Ao sinal do chefe, milícia de meganhas do PDT tenta intimidar jornalista do 247

Tão logo Ciro proferiu a coleção de aleivosias caluniosas e mentirosas contra o Brasil 247 e a TV 247, um homem trajando calça jeans e camisa branca, cerca de 1,83 metro, postou-se por trás do jornalista que havia perturbando o candidato do PDT com uma pergunta. De forma insidiosa, o militante pedetista passou a filmar o profissional e o que ele escrevia no aplicativo de mensagens do celular, aproximando-se e dizendo: “vai embora. Cumpriu seu papel. Sai”. Ouviu de volta, também ao ouvido, de forma firme: “vá à merda”. O repórter virou-se para o candidato, que tentava seguir a coletiva, contudo, ouviu outra determinação para deixar o espaço do PDT. Ao que reagi: “você não me conhece, vá à merda”. Em nome da minha própria segurança pessoal, estabeleci contato visual com Ciro Gomes e com seu assessor. Ambos perceberam do que se tratava e mandaram, com gestos, que o “miliciano pedetista’ se afastasse.Funcionou por meros 15 segundos. Dois outros “meganhas” da militância pedetista, um deles de vermelho, o outro de branco, postaram-se por trás do jornalista da TV 247 e do Brasil 247. Um à direita, outro à esquerda. Ambos sopraram-me ao ouvido uma determinação: “vaza. Cumpriu seu papel. Era isso o que você queria”. Receberam cotoveladas destinadas a demarcar o espaço entre eles e eu e procurei novo contato visual com o candidato. Não foi possível. Levantei os braços e virei para o senador Cid Gomes e para o ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio: “Cid, Roberto, tirem os meganhas de vocês daqui”. Cid Gomes chegou junto de mim, perguntou o que se passava. Expliquei. Ele afastou os dois meliantes da cena do crime contra a imprensa, que já estavam cometendo, e pediu-me: “meganha, não. Um deles é meu assessor no Senado, professor universitário”, apelou. “Professor e meganha. É assim, usando métodos de Bolsonaro contra a imprensa, que vocês vão combater o bolsonarismo?”, ouviu de volta. Àquela altura a entrevista tinha sido encerrada brevemente. Virei de costas e me retirei do galpão onde deveria ter ocorrido o lançamento festivo da candidatura presidencial de Ciro Gomes. O “meganha” de vermelho seguiu-me até ao jardim da sede do PDT, onde tentou estabelecer uma briga física. Ao perceber que haveria reação e que não tinha a solidariedade de ninguém em volta dele, desistiu.

Brasil 247

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