Grupos da “terceira via” iniciam campanha em defesa do voto nulo em caso de 2º turno entre Lula e Bolsonaro

A opção de votar nulo em segundo turno entre Lula e Bolsonaro está sendo analisada por dirigentes de grupos avessos à polarização entre o que eles consideram ser extremos políticos

Grupos políticos que vêm se empenhando para viabilizar a “terceira via”, ou seja, opção alternativa à polarização entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL), nas eleições de 2022, iniciaram uma campanha defendendo o voto nulo caso a empreitada fracasse e o segundo turno resulte em uma disputa entre o petista e o atual presidente. As informações são do Jornal Folha de S. Paulo.

A ideia, que seria usar o voto nulo como um protesto diante do possível cenário, circula entre os líderes do Movimento Brasil Livre (MBL). O grupo, hoje, está politicamente mais próximo do pré-candidato Sérgio Moro (Podemos) e de Luiz Felipe d’Ávila, pré-candidato do partido Novo.

O deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), um dos fundadores do MBL, é um dos apoiadores da mobilização. Contudo, o parlamentar afirma que o ato “não seria uma omissão, mas uma expressão do eleitorado”. “O principal recado de ter a maioria de votos nulos e brancos ou abstenção é mostrar que a maior parte da população rejeita os candidatos, e o eleito necessariamente começaria o mandato enfraquecido”, defendeu em declaração dada ao veículo de imprensa.

A opção de votar nulo, conforme Kataguiri, está sendo analisada por eleitores avessos à polarização considerada por ele como “extremista”. O deputado afirma que os grupos empenhados na terceira via irão trabalhar para que o quadro englobando um segundo turno entre Lula e Bolsonaro não aconteça. E nessa perspectiva, Kataguiri acredita na possibilidade de Bolsonaro ser ultrapassado por um candidato da terceira via.

Apoiadores do voto nulo também ganham adeptos no partido Novo. Além do próprio presidente da sigla, Eduardo Ribeiro, o ex-candidato à Presidência pela legenda, João Amoedo, já deu declarações simpáticas a esta ideia.

O correligionário de Amoedo, o deputado federal Vinicius Poit (SP) defendeu a ação e se declarou também refratário ao nome de Ciro Gomes (PDT). “Precisamos de uma outra opção que não seja nem esses dois nem o Ciro, que é um outro populista. […] Eu votaria nulo porque populismo, seja de direita ou de esquerda, não faz bem ao país”, afirmou ao jornal, o parlamentar que é pré-candidato do Novo a governador de São Paulo.

Poit também destaca que podem existir críticas ao movimento, considerando a decisão como uma omissão ou mesmo como uma transferência de responsabilidade para aqueles eleitores que optem por escolher de fato em quem votar. Porém, o parlamentar destaca que utiliza como estratégia de convencimento de eleitores o risco de muitos votos nulos serem registrados, para assim, possivelmente, impulsionar mais votos na terceira via. “Sempre reforço o apelo para que possamos construir, em diálogo com outras forças e partidos, uma opção que nos livre desse cenário”, disse ao jornal.

Rejeição da ideia

A proposta, porém, não é bem aceita por outros grupos que representam a terceira via. O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, por exemplo, afirma que a ideia de votar nulo é uma “covardia”. “Os dois turnos existem para isso. Entre dois nomes, você escolhe aquele que é mais próximo do que você pensa, ainda que haja divergências. […] Voto nulo é um ato de covardia. Sou de uma época em que protesto se fazia de outra maneira”, disse à reportagem.

Para o dirigente pedetista, é inadmissível “que quem participe do processo eleitoral defenda a nulidade do voto”. “Quem entra no primeiro turno já está legitimando o processo, então não é coerente anular o voto no segundo. É um absurdo”, disparou.

Quem também se manifestou contra a proposição foi o senador Alessandro Vieira (Cidadania-AL), que vem sendo apontado como presidenciável pelo seu partido. O congressista afirma que respeita quem decide optar pelo movimento, mas que não deve seguir essa ideia, uma vez que “não altera em nada o resultado da eleição”.

“Quem anular vai ter que suportar quatro anos de um governo e não terá legitimidade nem sequer para cobrar o cumprimento de compromissos. Tenho grandes amigos que anularam na eleição passada, mas eu não sigo essa linha”, complementou.

O tucano Arthur Virgílio (AM), terceiro colocado nas prévias do PSDB, e cabo eleitoral do pré-candidato da sigla, João Dória, também se disse contrário à anulação do voto. “É algo deletério e que prejudica o nosso campo. Como pode uma pessoa que quer organizar uma terceira via de verdade já colocar no seu rol de possibilidades a derrota?”, questionou.

Votos nulos no Brasil

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) destaca que é falsa a informação de que uma eleição poderia ser invalidada se mais de 50% dos eleitores anularem o voto. Mesmo assim, o número de votos nulos, brancos e de abstenções no Brasil vem crescendo nos últimos anos, a despeito de campanhas educativas do TSE que incentivam o exercício dessa obrigação dos cidadãos.

De acordo com levantamentos do jornal, somente no segundo turno das eleições para presidente de 2018, 90% dos municípios brasileiros tiveram aumento do percentual de votos inválidos na comparação com o pleito de 2014. Já nas eleições de 2020, o índice de abstenções foi de 23,14%, o maior já registrado em disputas eleitorais municipais em 20 anos.

Em nota à reportagem, o tribunal reforçou que busca “educar as pessoas acerca da importância da participação no processo eleitoral, cuja representação máxima está no voto”, tema que foi escolhido também para ser slogan das eleições do ano que vem: “Seu voto faz o país”. “Não existe democracia sem participação popular, e o TSE continuará a promover e apoiar iniciativas dessa natureza”, concluiu o tribunal.

Fonte: O Povo

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